Música Regional Portuguesa
CANTOS E DANÇAS DE PORTUGAL
MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA
1 MINHO | 2 TRÁS-OS-MONTES | 3 BEIRAS | 4 ALENTEJO | 5 ALGARVE

Recolha:
Michel Giacometti
Fernando Lopes-Graça

Canções e Danças de Portugal

Neste disco de Cantos e Danças de Portugal cotejam-se espécimes de formação sedimentária vária, estilos e géneros diferenciados pela origem e função social assumida, e expressões livres ou fixadas em quadros de certa rigidez.
Deste modo, os trechos aqui reunidos, se bem que na perspectiva de uma abordagem que quisemos facilitar, testemunham os fenómenos de oposições, combinações híbridas e reinterpretações que percorrem a nossa tradição musical.
Esta edição, por outro lado, justapõe uma gama de expressões sonoras, vozes, ecos e ruídos que nos integram, na medida possível, no próprio ambiente em que nasce e floresce o sentir musical do nosso povo.
Com este trabalho, uma vez mais mostramos acreditar na utilidade de iniciativas que, por modestas que sejam, como é este caso, nos ajudam a melhor entender – com as suas contradições, choques e novos arrumamentos de forças socias – o país real em que vivemos e cujas mutações qualitativas a cultura popular reflecte (se bem que nem sempre de forma directa e imediata).

Michel Giacometti

Michel Giacometti nasceu em Ajaccio (Córsega) e desde muito novo exerceu várias actividades intelectuais, que tornaram o seu nome conhecido no seu país. Passa depois a Paris, e em 1952 viaja por vários outros países, sempre ocupando as suas raras faculdades em trabalhos de varia ordem.
Terminou em seguida, na Sorbonne, o curso de Letras e Etnografia, disciplina que o apaixona e à qual dedica o melhor do seu tempo. Em 1959 achamo-lo em Portugal, onde se fixa até à data da sua morte, ocorrida em 1990, apenas na idade de 61 anos. Aqui em Portugal, concebe o plano de fazer a prospecção folclórica musical do País, plano que leva avante com um saber, uma inteligência e uma posição que o colocam no primeiro lugar entre todos, nacionais e estrangeiros, que à etnomusicologia se consagraram.
Funda os Arquivos Sonoros Portugueses, vastíssimo repositório das suas pesquisas, únicas entre nós, e edita, com a colaboração de Fernando Lopes-Graça, vários discos de musica regional portuguesa, que constituem uma revelação dos mais ricos e, a bem dizer, insuspeitados aspectos dessa música e que vêm a obter o alto apreço de várias personalidades e organismos internacionais especialistas da matéria.

Fernando Lopes-Graça

CD – 1
CANTOS E DANÇAS DE PORTUGAL – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI (1929-1990)

1 Aboio 3´07”
2 Chula 2´21”
3 Moda da Zamburra 2´31”
4 Moda da Sacha 1´18”
5 Redondo 2´32”
6 Mira-me Miguel 1´27”
7 Fandango Saloio 1´53”
8 Senhora da Póvoa 1´48”
9 Janeiras 1´10”
10 Reis 1´10”
11 Senhora do Carmo 1´42”
12 Scot 1´33”
13 S. João 1´32”
14 Maragato 1´39”
15 Serenata 2´14”
16 O Mineiro 1´17”
17 Deus te salve, ó Rosa 2´37”
18 Maçadela do linho 2´00”
19 Aboio da vessada 3´15”
20 Bicha 3´08”
Tempo total CD – I 43´37”

Música Regional Portuguesa – Minho
Para um razoável número de mentalidades, a província do Minho insere-se no contexto de um folclore ligeiro e risonho, e o certo é que este folclore vistoso, em grande parte inteiramente forjado, mais do que noutras províncias tomou no Minho, unicamente graças à contagiosa multiplicação dos chamados ranchos folclóricos, tais proporções que foi necessária toda a força viva e desperta de uma tradição (tradição que não é de modo algum uma entidade mítica mas sim um valor dinâmico) para resistir à sua lenta contaminação. E é esta a razão pela qual no Minho perduram, constante¬mente se renovando, formas de uma antiga tradição musical que de certo modo são como que o cordão um¬bilical que liga o povo à terra e que traduzem em clara linguagem a sua epopeia quotidiana.
As duas dezenas de espécimes musicais que cons¬tituem este disco foram seleccionadas e estudadas pelo nosso colaborador Fernando Lopes-Graça dentre mais de 150 documentos, que representam oito horas de música gravada em quarenta e cinco das setenta e duas localidades no passado Verão prospectadas, no decurso de um longo e difícil inquérito que nos levou a percorrer uns 8000 quilómetros.
Se é certo que alguns exemplos importantes da nos¬sa recolha provêm das zonas isoladas das serras do Soajo e do Gerês, não é menos certo que os coros mais impressionantes que nos foi dado escutar foram, sem dúvida muito paradoxalmente recolhidos em local¬idades situadas nas proximidades das grandes vias de comunicação e vizinhantes de centros como Ponte da Barca e Barcelos. Assim, uma das primeiras dificul¬dades da nossa prospecção foi descobrir, onde menos o esperávamos, essas áreas em que, sem razão visí¬vel, perduram cantos que, provindo de épocas longín¬quas, assimilaram todas as influências e sairam arga¬massadas das entranhas populares.
Um outro óbice, certamente não dos menores e que facilmente se poderá imaginar quando se sabe que o Minho é uma região de forte emigração e que a maior¬ia das aldeias da zona setentrional estão minguadas de homens, foi juntar, para lhes pedir que cantassem, mul¬heres de todas as idades, as quais, consoante a sua própria expressão, “vivem no luto” da separação.
Por outro lado, não faltam, sem dúvida monografias e estudos especializados susceptíveis de orientar o nosso inquérito, mas o certo é que muitos desses tra¬balhos não correspondem a um critério científico rigo¬roso. Deste modo, as únicas publicações que concreta¬mente facilitaram a nossa prospecção foram as de Gonçalo Sampaio, cujo Cancioneiro Minhoto nos trouxe uma ajuda preciosa, e sobretudo as de Vergílio Pereira, a quem devemos o ter podido recolher os coros de S. João do Campo (Gerês), bem como os ulterior¬mente gravados no Douro Litoral. A Vergílio Pereira cabe pois o mérito de haver sido quem primeiro desco¬briu estas puras jóias e para elas chamou as atenções.
É-nos grato dedicar este volume da Música Regional Portuguesa à memória de Gonçalo Sampaio, asso¬ciando a esta homenagem as cantadoras de S. Martinho de Crasto, que foram as nossas informadoras – cam¬ponesas de rostos quais medalhas cunhadas no metal de uma vida rude, que nos ofereceram, como simples dádiva da sua hospitalidade, estes cantos de um longínquo passado e como que dilacerados por gritos violentos da realidade.
Michel Giacometti

Apelidamos nós, em certa ocasião, a canção minhota de “lugar-comum da canção popular portuguesa”, coisa que não caiu bem em certos estudiosos do nosso fol¬clore e nos valeu, por tabela, alguns remoques…
Que queríamos significar na nossa? Simplesmente que, a julgar pelas espécies mais conhecidas e mais gabadas, a canção minhota, sobre não oferecer carac¬terísticas morfológicas e expressivas muito de tomar em consideração, constituía ainda por cima disso – ou por causa disso mesmo – o padrão pelo qual se aferia e exalçava a excelência da canção regional portuguesa tomada na sua generalidade, a ela tudo nesta se reduzindo. Prespectiva falsa e de molde a descorçoar qualquer critério etnomusicológico de alguma exigência, convidando assim à ironia.
Que a canção minhota não é apenas esse lugar-co¬mum por nós denunciado pudémo-lo agora verificar pela recolha levada a efeito por Michel Giacometti na província do Minho ou, talvez dito com mais justeza, na parte dessa província, a parte setentrional, que feliz¬mente tem escapado à atenção e à exploração dos prosélitos do lugar-comum. Isto, todavia, sem esquecer trabalho idêntico, embora de menor âmbito, já realiza¬do por Vergílio Pereira por aqueles sítios, trabalho de que nos dá parcialmente conta na sua pequena publi¬cação intitulada Corais Geresianos.
Com efeito, algumas das espécies compendiadas neste disco consagrado, na sua quase totalidade, à província do Minho, estão muito longe do lugar-comum, são mesmo o contrário do lugar-comum, na sua invul¬garidade, na sua raridade como documentos propostos à etnomusicologia, nas surpresas de vária ordem que oferecem à nossa curiosidade de conhecimento ou à nossa apetência de autenticidade. O garrido, o pitoresco, o “folclórico” (no sentido deturpado da palavra, já se vê, que é o sentido corrente entre nós), estão daqui excluídos, já por não perfilhados pelas populações de cuja boca se ouviram os cantos, já por deliberado critério de escolha por parte dos organi¬zadores desta antologia.
O que no disco se nos depara é, sim, uma boa dezena de impressionantes testemunhos, cuja signifi¬cação humana iguala, se é que não excede, o seu puro interesse etnomusicológico. Escutemos, por exemplo, a Cantiga de malhadas (n°- 2), a Senhora do Alívio (n°¬3), Rosinha (n° 9), o Aboio (n°- 10), Alegres cantemos (n° 16), Ai, sim (n°- 18). Compadecer-se-ão estes can¬tos, no que nos revelam dos processos profundos da psique das populações que os cantam, com o repisado cliché de um Minho despreocupado, beatífico, edénico?
Na sua grande maioria, as espécies recolhidas são polífónicas. Os aspectos que esta polifonia reveste são por vezes de uma singularidade que porventura lhe acarreterá o desdém de algumas pessoas, que a apodarão de “bárbara”mas que será também certamente saboreada com prazer por outras, aquelas a quem o seu “primitivismo” (“primitivismo” que, por vezes, e muito naturalmente, vem a lindar com o “modernismo”), não agastará.
Os dois últimos cantos aqui apresentados não provêm da província do Minho, mas sim da província do Douro Litoral. Não se havendo recolhido nesta mais espécies cujo interesse etnomusicológico jutifìcasse a edição de um disco equitativamente consagrado às duas províncias, entendemos no entanto não enjeitar os ditos cantos, emparelhando-os com os do Minho, com os quais, na verdade, guardam afinidades de esti¬lo e de estrutura.

Fernando Lopes-Graça

CD – 2 MINHO

MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI / FERNANDO LOPES-GRAÇA

1 Cantilena de pedreiro 3´07”
2 Cantiga de malhadas 1´59”
3 Senhora do alívio 3´12”
4 As Santas Cruzes 3´30”
5 Grito de escatilhar 0´38”
6 Os Tristes Filhos 1´17”
7 Senhora do Sameiro 2´51”
8 Solo de harmónio 1´15”
9 Rosinha 2´10”
10 Aboio I 3´07”
11 Auto da Floripes (fragm.) 4´03”
12 Segaditas 1´54”
13 Solo de flauta 0´45”
14 Encomendação das Almas 1´40”
15 Aboio II 1´37”
16 Alegres cantemos 3´30”
17 Canto do S. João 0´50”
18 Ai, sim 0´55”
19 Melopeia de carpideira 2´41”
20 Reis 1´48”
21 Senhora Sant’Ana 1´38”
22 Arrula, arrula 2´49”

Tempo total CD – II 48´28”

Música Regional Portuguesa – Trás-os-Montes
Este disco é dedicado à memória de Kurt Schindler, musicólogo americano que, tendo percorrido Trás-os-Montes em 1932, foi o primeiro a notar e a gravar algumas das mais preciosas melodias que esta Província conserva ainda.
Os cantos e os trechos instrumentais, que constituem este testemunho de uma tradição musical excepcionalmente rica, foram seleccionados por Fernando Lopes-Graça dentre os documentos sonoros por nós recolhidos nas zonas mais recuadas da Província, onde percorremos 6000 kms, boa parte dos quais a cavalo e a pé, e prospectámos quarenta e cinco aldeias.
Não pode deixar de causar admiração o facto de, provindo a maioria destes cantos de épocas tão longínquas, terem eles chegado até nós na sua quase integral pureza, conservando do mesmo passo as suas funções na vida da colectividade.
Cabe à gente transmontana o mérito de haver preservado uma tradição que, no seu significado, é tanto mais de apreciar quanto um público, consciente do perigo que representa para a cultura nacional a especulação de certo folclore superficial, reclamava, pela voz de homens como Fernando Lopes-Graça, que fossem recolhidos na sua integridade estético-sociológica os elementos susceptíveis de precisar a vera fisionomia de uma tradição musical popular.
Esta gente encontrámo-la no humilde tugúrio do lavrador, entre as gavetas queimadas do sol, ao longo das procissões de carros rangedores, e espontaneamente ela se prestava às duras exigências da tomada de som. Por vezes mesmo, roubando às suas noites o repouso e o sono, cantou até ao romper da alva as mais autênticas e doridas canções, que trazem e impõem ao presente as reminiscências do passado.
Em Tuizelo, perto de Vinhais, julgámos crer num milagre, ao ouvirmos as crianças trautear romances como os de “Dona Filomena”, “D. Fernanda” e “D. João”, esquecidos noutros lugares ou conservados apenas na memória dos velhos.
Em Tuizelo ainda, nos acolheu a franca bonomia do Padre Firmino Martins, autor do prestimoso Folklore de Vinhais, cujo segundo volume, editado em 1938, inclui precisamente notações musicais feitas por Kurt Schindler no decurso de duas visitas.
À nossa descoberta de Trás-os-Montes não são, pois, estranhos os nomes do Padre Firmino Martins e o de Kurt Schindler. Em boa verdade, não se descobre Trás-os-Montes: antes recebemos o choque das linhas duma paisagem brutal como um acidente, que lhe imprimem aquele cunho enxuto, escalvado, que as fisionomias revelam e transparece nos cantares.
O “ouro puro” destes cantos, no dizer de Kurt Schindler, colhemo–lo às mãos cheias no tesouro que tal povo nos desvendou.
Aqui, ele nos oferece as suas mais preciosas relíquias: hinos sagrados, cânticos de trabalho, seus poemas de amor e de morte.

Michel Giacometti

A música regional da Província de Trás-os-Montes era muito mal conhecida até ao presente, mesmo em Portugal. As riquezas que, por escassos indícios, nela se suspeitavam, vêem-se agora largamente confirmadas neste disco, a essa música inteiramente consagrado, embora, forçosamente, longe de lhe esgotar todos os aspectos. O falar-se em riquezas não poderá antolhar-se um exagero a quem atentar bem nos dois aspectos essenciais das espécies arquivadas nesta colectânea: por um lado, os textos literários, no seu inapreciável valor poético e documental, frisante nos “romances”, de que Trás-os-Montes parece ser mina única; por outro lado, as melodias, na preciosa variedade dos seus géneros e expressões. E isto sem esquecer a música instrumental, essas tão saborosas danças, nomeadamente as dos pauliteiros, com os seus verdadeiros virtuosos de gaita de foles, – embora pareça tornar-se evidente ser propriamente no domínio vocal que a música regional de Trás-os-Montes alcança a maior significação, podendo talvez desde agora afirmar-se que os cantos transmontanos constituem uma das mais profundas e originais expressões da música regional portuguesa.
Nós não iremos, nesta breve notícia, embrenhar-nos em considerações acerca da filiação ou influências, remotas ou próximas, desses cantos, – problema (se de problema se trata) capaz de fazer perder a cabeça a qualquer, e nomeadamente a etnomusicólogos e arqueólogos, sem que, por via de regra, a nenhuma conclusão se chegue, ou sem que nos não vejamos arrastados num puro ciclo vicioso. Mas não há dúvida que, em múltiplas das suas feições, a música regional de Trás-os-Montes levanta perplexidades e interrogações, que hão-de certamente apaixonar os estudiosos do folclore comparado. É possível que estes vislumbrem nela ecos ou reminiscências de expressões e formas musicais pretéritas, medievalismos, exotismos, a Igreja, a Sinagoga, os Gregos, os Árabes, tudo o que forma, ou se supõe formar, o protoplasma do homem português e da sua cultura. Não o discutamos. Para nós, e para quantos possam sentir a força e a beleza seivosa desta música, bastar-nos-á descobrir ou testemunhar o “facto” dessa força e dessa beleza.
A música folclórica é – e a de Trás-os-Montes é de uma maneira singular, inconfundível, que se faz evidência e presença. Ela situa-se e situa-nos. Situa-se num determinado ambiente geográfico e social, com que parece formar corpo, ou de que parece ser emanação directa. E situa-nos a nós numa vivência, que se nos impõe pelo que nos comunica como sentimento de uma autenticidade.
Note-se a extrema severidade desta música, destes cantos, o seu carácter despido de todo e qualquer sentimento ou preocupação de “agradabilidade”, o seu “desenfeitamento”, a sua cor terrosa, – o que tão bem vai com uma paisagem de linhas e volumes duros, ensimesmados, com o génio rude, inteiro, da gente transmontana e o patriarcalismo dos seus costumes. No seu lirismo sóbrio e penetrante, “Manhaninha de S. João”, “Valdevinos”, “Malva, malveta”, o “Perdigão”, o “Bendito”, e outros cantos repassados de vozes ancestrais, são ou não uma “presença” do homem, do homem transmontano, parcela do homem universal nos seus momentos de funda identificação com o espírito da Terra e das Horas?
Fernando Lopes-Graça

CD – 3 TRÁS-OS-MONTES

MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI / FERNANDO LOPES-GRAÇA

1 Alvorada 3´09”
2 O Conde Ninho 1´18”
3 Manhaninha de S. João 2´06”
4 Agora baixou o Sol 1´05”
5 Viste lá o Meu Amado (Paixão) 2´32”
6 Murinheira 2´02”
7 Dona Ancra 3´50”
8 Deus te salve, Rosa 1´33”
9 Faixinha verde 1´33”
10 Li-La-Ré 1´46”
11 Valdevinos 1´34”
12 Dona Filomena 1´58”
13 Malva, Malveta 1´14”
14 A mal-casada 1´42”
15 Ó perdigão 1´39”
16 Galandum 0´46”
17 Vinte-cinco 2´12”
18 Mineta 1´17”
19 Encomendação das Almas 2´21”
20 Cantilena da pedra 1´27”
21 Carvalhesa 1´38”
22 Bendito 1´42”
23 Ró-Ró 1´44”
24 Redondo 1´44”
25 Don Fernando 2´48”
26 Dá-Lá-Dou 1´31”

Tempo total CD – III 49´45”

Música Regional Portuguesa – Beiras
O inquérito etnomusicológico que abrangeu vastas zonas das Províncias da Beira Alta, Baixa e Beira Litoral tornou-se possível, na sua extensão e profundidade, graças à colaboração convergente de várias entidades privadas e oficiais.
Deste modo facilitado, o inquérito processou-se em seis etapas (de Agosto de 1968 a Outubro de 1970), no decurso dos quais foram percorridos cerca de vinte mil quilómetros e recolhidas, em noventa das cento e setenta localidades sobre as quais iniciou o nosso trabalho, seiscentas espécies musicais, representando umas trinta horas de gravação útil.
A escolha dos documentos para a composição do presente disco, que pretende ser, por assim nos exprimirmos, a suma do inquérito, obedeceu ao imperativo de uma representação tão objectiva quanto possível, nos planos quantitativo e qualitativo, dos cinco distritos que constituem as três Beiras. Representação que, no entanto, não pode, como se torna óbvio, reflectir a realidade musical objectiva desses mesmos distritos, mas apenas acentuar as suas linhas ou tendências gerais.
No próprio encadeamento dos trechos musicais procurou-se, em obediência ao critério adoptado ao iniciarmos este panorama, facilitar a apreensão por parte do simples ouvinte, mediante um contraste apropriado dos géneros, modalidades, estruturas melódicas e harmónicas, etc. Pensamos ainda que semelhante apreensão pode também ser facilitada pela unidade estética para que, até certo ponto, convergem os vinte e oito trechos compendiados. Por fim, sem nos afastarmos deste critério, entendemos por bem juntar espécies cujo confronto imediato, dentro de uma mesma sequência, possa servir aos estudiosos da nossa música regional.
Força nos é notar novamente o estado de desagregação em que se encontra a nossa cultura de tradição oral, sendo de prever num futuro que se nos afigura muito próximo o total desaparecimento das suas formas originais. E mais uma vez apontaremos como elementos subversivos, neste caso, as comunicações de massa na sua quase generalidade quotidiana, a par dos muitos agrupamentos chamados folclóricos que, como que dialectivamente, actuam para fomentar e difundir formas convencionais de cultura. Neste sentido, diremos todavia que o grave fenómeno de emigração se nos não antolha, após reflexão, influir por ora de maneira por demais ostensiva nesse processo de desagregação a que vimos aludindo.
Resta-nos dirigir aqui nos nossos mais vivos agradecimentos ao povo beirão, que, espontaneamente, nos prestou a mais útil e dedicada assistência.
Michel Giacometti

A música das províncias beirãs é acaso aquela que, dentre as nossas músicas regionais mais cedo e com relativa continuidade foi e tem sido objecto de curiosidade de investigadores ou simples colectores. O sinal de partida foi dado pelo erudito Pedro Fernandes Tomás (não especificamente músico) quando, em 1896, publicou as suas Canções Populares da Beira, prefaciadas pelo ilustre Leite de Vasconcelos (também nada familiarizado com as disciplinas propriamente musicais). A partir de então, as compendiações escritas dessa música constituem um pequeno corpo de publicações de valor certamente desigual mas que, não obstante, colocaram a música beirã (e mormente a da Beira Baixa que, neste capítulo, devemos considerar levar a palma às suas irmãs) numa situação de privilégio em relação às outras províncias portuguesas, pelo que se refere à sua divulgação do público e, digamos, ao seu “aproveitamento” por parte dos próprios músicos, profissionais ou amadores.
No entanto, todas estas publicações, irregulares já de si (com uma que outra excepção relevante) nos critérios propriamente etnomusicológicos que as informavam, pecavam ainda por uma deficiência fundamental: a de nos oferecerem uma imagem unilateral da música beirã, reduzida ao monodisco, quando o que faz o interesse e o valor mais inapreciável deste é sem dúvida a sua a bem dizer predominante estruturação polifónica.
Sem desconhecermos trabalho já anteriormente feito, mas pouco acessível, no campo da fixação por meio de gravação da fisionomia própria da música beirã (referimo-nos aos discos realizados por Artur Santos por incumbência da B. B. C. de Londres), cremos que o presente volume da série Música Regional Portuguesa vem trazer um contributo essencial ao conhecimento e estudo de uma música que se revela possivelmente como a mais rica, quanto a aspectos, e no plano morfológico e estilístico, entre as nossas músicas folclóricas.
Talvez em nenhuma outra região portuguesa, como nas Beiras (com alguma reserva para a Beira Litoral e certas zonas da Beira Alta – e se é que é cientificamente legítimo operar dicotomias em províncias que, geográfica e etnograficamente, se interpenetram), se nos depare uma tal variedade, uma tal sobreposição de estratos de música folclórica, o “primitivo” vizinhando o “ evolucionado”, o “antigo” a par do “moderno”. Claro que “primitivo” e “evolucionado”, “antigo” e “moderno” são aqui conceitos puramente relativos e sem significação imediatamente valorativa: nem o “primitivo” ou o “antigo” são sinónimo de rudimentar, inferior, nem o “evolucionado” ou “moderno” implicam polimento, superioridade.
Não há dúvida porém que, debaixo de um ponto de vista prioritariamente etnomusicológico, as espécies “primitivas” ou “arcaicas” (o que talvez se possa classificar” de “estilos antigos” da música beirã) aqui reunidas – citemos, por exemplo, além das várias cantigas de romaria, os “Martírios” e a “Cantiga da Azeitona”, respectivamente n.º 2 e n.º3 a “Cantiga da Ceifa”, o “Olé, ó Senhora Mãe” e a “Aleluia”, n.º 12, 20 e 24 – não há dúvida que tais espécies oferecem propostas de vária ordem que fazem delas, para além da sua beleza própria, documentos de raro interesse, certamente destinados a enriquecer os aliciantes horizontes da musicologia comparada.

Fernando Lopes-Graça

CD – 4 BEIRAS

MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI / FERNANDO LOPES-GRAÇA

1 Bacelada 1´10”
2 Martírios 2´05”
3 Cantiga da azeitona 1´24”
4 Bendito 1´46”
5 Alvorada 1´25”
6 Amentar das almas 3´28”
7 São João 1´35”
8 Bendito 1´16”
9 Cantiga da ceifa 1´54”
10 Dança dos homens (fragm.) 1´16”
11 Maçadela do linho 1´23”
12 Senhora do Almurtão 1´17”
13 Cantiga da roda 2´10”
14 Senhora Santa Combinha 1´44”
15 O Carvalhal 1´18”
16 Senhora da Póvoa 1´09”
17 Cantiga da ceifa 2´06”
18 Canto da Paixão 1´10”
19 Devoção das Almas 2´16”
20 Olé, ó Senhora Mãe 2´13”
21 S. João 1´32”
22 Senhora Santa Luzia 1´19”
23 Aboio 1´37”
24 Aleluia 0´58”
25 Cantiga do Entrudo 0´58”
26 Cantiga da sacha 0´58”
27 Cantiga de nanar 0´46”
28 A Tia Baptista 1´19”

Tempo total CD – IV 46´15”

Música Regional Portuguesa – Alentejo
Homens e mulheres do Alentejo colaboraram neste nosso inquérito, prestando-nos calorosa ajuda, contrariada, todavia, pelo facto social da emigração, que ia tornar problemática a reunião de grupos corais não organizados. Esta emigração, bem como o processo de mecanização agrícola, que lhe não é alheio, trazem como consequência a desagregação dos ranchos de trabalhadores nas sazões próprias, que constituem como que pequenas comunidades participando das mesmas preocupações e que, em larga medida, o canto coral exprime. Mais directamente ainda, a emigração acarreta a falta de elementos especializados, tais como pontos e alto, já de si raros pelo facto da sua mesma especialização. Se a isto acrescentamos certas interdições locais, como a que atinge o costume de, por desfastio, se cantar de noite pelas ruas das aldeias, teremos especificado alguns factores directos da decomposição progressiva do canto coral alentejano.
Paradoxalmente – mas sem dúvida na intenção de paliar este estado de coisas – proliferam concursos baseados em critérios duvidosos e destinados a favorecer a multiplicação de grupos corais organizados que, na sua generalização, tendem para a banalização do canto nas suas formas poéticas e musicais. Graças a uma certa estabilidade, que lhes é garantida por uma existência oficializada, estes grupos, aliás, arriscam-se a constituir dentro em breve o último reduto do canto coral, extirpado contudo de toda a espontaneidade e dinamismo criador.
Insistiremos no canto coral porquanto nele descortinamos – e sem que esse canto possa pretender, como adiante o observa o nosso colaborador Fernando Lopes-Graça, a representar toda a tradição musical do Alentejo – aquelas características próprias do canto folclórico, que é o achar-se funcionalmente ligado às fainas e ritos da vida rural.
O canto coral alentejano nasceu num meio ambiente fortemente caracterizado, que não se cifra apenas na vastidão da paisagem de que tanto se tem falado e que bastaria só por si para lhe imprimir a sua dolorosa monotonia.
Tributário e testemunha de certas estruturas económicas e sociais específicas, desenvolveu-se, antes de mais nada, nessas comunidades de homens, ombro a ombro unidos, como filhos do mesmo labor.
Mas, companheiro de trabalho, está igualmente presente na casinha do ganhão nas horas de folga, presente ainda nos dias de festa e nas horas cerimoniais, quando, como tantas vezes sucede, ritos religiosos e agrícolas se confundem. E é por isso que ela sabe exprimir toda a gama de sentimentos e emoções de um povo que, através dele, preserva uma certa forma de unidade espiritual.
Os textos poéticos, que na sua tão viva variedade, até nós chegam, traduzem complexos específicos nos quais, através dum simbolismo que facilmente se deixa decifrar, se descobrem aspirações profundas, tal como o revelam aquelas quadras chamadas cantigas, que se desenvolvem em torno de motivos essenciais ou se renovam ao sabor dos acontecimentos e que nesta polifonia severa encontraram um como que suporte natural.
A lenta asfixia do canto coral e, mais geralmente, do canto tradicional alentejano, chamam a uma tomada de consciência todos aqueles que lhe reconhecem esta função: a de ser solidário, na marcha do tempo, com todo um povo para quem o canto é raiz de vida e flor de esperança.
Deste modo, o imperativo da sua preservação – passo primordial para a sua avaliação e integração na cultura nacional – parece-nos justificar amplamente as canseiras que nos custou este singelo trabalho, por nós dedicado a este povo, ao qual, mais do que nunca, é lícito aplicar a sentença: “povo que canta não pode morrer”.

Michel Giacometti

Na roda das províncias portuguesas, o Alentejo é acaso aquela de cuja música possuíamos mais largo e documentado conhecimento. Pelo menos de uma parte ou de um aspecto dela, dessa música: os cantos corais, de que a região do Baixo Alentejo, e mormente as terras definidas pela bacia do Guadiana médio (referindo-lhe ao troço português do seu curso), detém certamente o privilégio.
Muito se tem falado destes cantos e, naturalmente, forçoso nos é também algo dizermos a seu respeito. Evitaremos, porém, todos os lugares-comuns sobre eles posto a circular, desde a impropriedade do termo substantivo coral, com que é frequente designá-los, até às expressões de uma retórica duvidosa tendentes a exalçá-los, que não raro nos são fornecidas – para não tocarmos já na esquipática teoria do seu “arabismo” primordial… A verdade é que nem todos estes cantos constituem espécies de um valor ou um interesse etnomusicológico indisputável. Muito de escassamente relevante neles com frequência se nos depara. A tendência para um certo esteriotipismo morfológico e expressivo torna-se aqui e ali evidente – tendência reforçada, se é que não provocada, pela actual e malfadada balda da organização dos cantadores regionais em “ranchos folclóricos” e pelo não menos nefando morbo das competições mais ou menos turísticas entre eles, criadoras de prejuízos e complexos de ordem social e psicológica de que a música folclórica, como fenómeno estético imediato e gratuito que é, não pode de toda a evidência beneficiar, muito pelo contrário. Contudo, nas suas espécies mais lídimas, aquelas que se nos revelam imunizadas de influências espúrias e que se inserem, na realidade, num conceito não artificioso do “tradicional”, não restam dúvidas de que os cantos corais alentejanos constituem uma das mais assinaláveis expressões do sentir musical da gente portuguesa – na espécie, a gente alentejana, cuja índole a um tempo altaneira, caprichosa e ensimesmada e cujo estépico habitat eles reflectem de maneira inequívoca – do mesmo passo que testemunham de uma formação e de uma vivência estética colectivas que muito podem prender a atenção da sociologia e da etnomusicologia.
No entanto, a música tradicional do Alentejo (que parece vir confirmar o quase axioma de que a música regional portuguesa tem a sua vera fisionomia no domínio vocal) não se reduz aos cantos corais de que temos vindo falando. Ela compreende outras espécies, a que porventura se tem prestado menos reparo mas que nem por isso deixam de ser eminentemente reveladoras. Talvez ao invés, encaradas estas espécies de um ponto de vista puramente etnomusicológico e ponderadas as considerações ou as hipóteses a que a seu respeito semelhante ponto de vista nos pode levar. Cantos de trabalho como a “Tralhoada”, n.º 1, cantos religiosos monódicos como “Já lá gritam no Calvário”, n.º 6, “O vos omnes”, n.º 8, ou “São João se adormeceu”, n.º 11, os preciosos fragmentos do “Auto da Criação do Mundo”, n.º 9, por exemplo, em razão das reflexões formuladas nas notícias que se lhe consagram, são, indubitavelmente, documentos que sobremodo enriquecem e completam o âmbito dimensional mais ou menos consabido da música alentejana, do mesmo modo que ampliam o conhecimento e as noções sobre o corpus da música regional portuguesa que esta antologia gravada proporciona, não sem certas oposições e mal-entendidos, revele-se-nos o tocar em tal…
Feitas porém estas observações, atinentes a delinear uma perspectivação da música alentejana mais consentânea com a realidade (realidade ainda possivelmente fragmentária), não constituirá acaso grande temeridade o definir o povo alentejano como sendo o mais “musical” da gente portuguesa – entendendo-se por aí a sua natural capacidade para se traduzir e consciencializar em canto, a sua rara espontaneidade mélica, enfim, aquilo a que poderemos chamar a sua temperamental disponibilidade lírica, que o leva a achar boas todas as ocasiões, todas as horas, para dar largas à sua inata musicalidade. E, porventura, mais do que isso: a gravidade que põe no acto de cantar, para ele verdadeiro acto de identificação colectiva, de comunhão espiritual com os do seu sangue e da sua pátria, para onde quer que vá, onde quer que se encontre. Em roda, os olhos cerrados, expressão concentrada do rosto, o mais das vezes ombro a ombro ou braços com braços em ondulada movimentação, assim entoam os ganhões alentejanos os seus cantos. E é como se cumprissem um antigo e necessário ritual.
Fernando Lopes-Graça

CD – 5 ALENTEJO

MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI / FERNANDO LOPES-GRAÇA

1 Tralhoada 2´24”
2 Entrai, pastores, entrai 3´50”
3 Ai, solidão, ai dão, ai dão 2´04”
4 Ai, festas de Campo Maior 1´04”
5 oliveiras, oliveiras 1´51”
6 Já lá gritam no Calvário 1´29”
7 Esta noite é de Janeiras 1´53”
8 O vos omnes 2´51”
9 Auto da Criação do Mundo 4´04”
10 À porta de uma alma santa 4´06”
11 São João se adormeceu 1´41”
12 Oh! Quem gaba Serpa p’r’ó canto 1´43”
13 Oh! Que linda pomba branca 2´15”
14 Toque do peditório 1´10”
15 Às vezes lá no meu monte 2´08”
16 Pastores do verde prado 1´14”
17 Se fores ao mar pescar 2´16”
18 Estas casas são bem altas 2´10”
19 O tempo do Entrudo 1´59”
20 Ó meu Menino Jesus 1´42”
Tempo total CD – I 45´35”

Música Regional Portuguesa – Algarve
Este disco é consagrado à zona do Algarve. Os vinte e um trechos nele compendiados foram novamente seleccionados por Fernando Lopes-Graça, dentre umas duas centenas de espécies recolhidas em vinte sete localidades daquela Província.
O principal óbice desta nova prospecção, numa região de habitat disperso por “montes” isolados e de comunicações nada cómodas, residia naquele traço do carácter do povo algarvio que o torna reservado até quase ao mutismo. Quantos esforços se não tornaram necessários para vencer a sua desconfiança! E no entanto, não poucas vezes nós viríamos a reconhecer que as virtudes de hospitalidade de que dá provas nada ficam a dever às do povo transmontano.
O carácter e autenticidade de recolha, efectuada durante uma digressão de mês e meio e a qual incidiu essencialmente sobre oitenta e cinco aldeias e “montes”, bastaria para relegar à categoria dos acessórios turísticos o tão decantado corridinho, que as populações rurais do Monchique, do Caldeirão e do “Algarve” propriamente dito, parece pela maior parte desconhecerem. E não deixa de ser significativo o facto de só em Salir havermos encontrado um homem que, na sua “gaita” de cana, nos tocou um corridinho “antigo”, ao que ele próprio nos informou.
Quanto a obras especializadas e monográficas que pudessem orientar–nos no nosso trabalho, salvo raras excepções (entre as quais convém citar a Monografia de Monchique do Dr. José António Guerreiro Gascon), são elas assaz antiquadas e, ainda por cima, menosprezadoras deste aspecto essencial da cultura popular.
Enfim, importa frisar que, no Algarve, ao que parece mais que alhures, o processus de degradação do folclore musical, devido a influências várias que não cabe aqui dilucidar (a menor das quais, porém, parece não ser a divulgação da rádio) acelerou-se particularmente nesta última década. Eis porque o nosso empreendimento, por muito modesto que seja nas suas ambições e nos seus meios, se apresenta como obra de desesperada salvaguarda de um património em vastíssimas proporções irremediavelmente perdido.
A mais eloquente recordação da nossa digressão situa-se a bordo da traineira Nicete, a vinte milhas ao largo de Portimão.
…A noite escoara-se num círculo de estrelas moventes, que são os fogos das traineiras-irmãs; e quando, ao romper do dia, de súbito o imenso cerco se fechou sobre a presa invisível, um canto irrompeu.
Canto que acompanha o esforço destes homens ombro a ombro debruçados sobre a vaga e que, durante uma hora, a esse esforço se sobrepõe. Inolvidável espectáculo, o daqueles olhos semicerrados, o daqueles corpos onde o suor abre sulcos, daqueles sistemáticos gestos do levantar das redes, reflectidos pela vaga já resplandecente do vivo prateado do peixe.
E eis que o canto se amplia até à tortura, para vir a morrer num arquejo, para vir a renascer nos gritos de: Ai, Jesus! Oè, Camarada!… Simultaneamente canto e grito, dilaceramento e exaltação da dor: tal é este “Leva, leva” que, aos primeiros ardores do Sol, nesse dia, como todos os dias, os quinze homens da Nicete com toda a simplicidade entoaram.
A esses rudes homens, ao seu trabalho, à sua quotidiana coragem, é este disco respeitosamente dedicado, em sinal de amizade fraterna.

Michel Giacometti

A Província do Algarve era outra das incógnitas maiores da música regional portuguesa. Menos ainda do que sobre Trás-os-Montes, dela possuíamos informações ou documentos que nos permitissem formar um juizo mais ou menos seguro acerca da musicalidade própria das suas populações – o que se tornava tanto mais desesperante quanto é certo não escassearem os testemunhos da rica literatura tradicional algarvia: contos, lendas, romances, etc.
A presente recolha vem dizer-nos algo, sem dúvida de interesse, sobre a música tradicional algarvia. A primeira coisa que ela nos revela é ser o cliché do Corridinho, como tipo mesmo da música popular algarvia, sua imagem e sua superior floração, inteiramente falso. No Algarve há mais de infinitamente melhor do que o “Corridinho”, que as suas populações pela maior parte desconhecem, como atrás o nota Michel Giacometti. Há mais e melhor, dentro daquilo que ainda foi possível salvar do desgaste do tempo, que daqui parece acusar-se mais do que em qualquer das outras Províncias.
Há um primeiro tipo, o mais precioso e certamente o de mais antiga sedimentação, de música tradicional, constituído por velhos romances e velhos cantos religiosos, afortunadamente ainda conservados na retentiva das pessoas idosas; e há um segundo tipo, porventura de formação mais recente, que engloba canções e danças de um carácter vivo, galhofeiro, e não raro licencioso, que nos transmitem uma imagem mais comum da psicologia e do comportamento do povo algarvio. Sem desprezar inteiramente este segundo tipo, as nossas preferências, ao organizar esta colectânea, foram naturalmente para o primeiro tipo, porque musical, poético e sociologicamente mais significativo.
Novamente, o que predomina é a música vocal, como que a comprovar o asserto dos que consideram ser esta, na verdade, a mais significativa manifestação do sentir musical do povo português, a música instrumental (aqui representada apenas por três singelos documentos) só excepcionalmente atingindo similar importância.
Revelação única, esta música algarvia? Talvez não. Mas uma meia dúzia de espécies no disco arquivadas, por exemplo: o dramático Leva, Leva!, os belíssimos romances da “Dona Mariana”, do “D. Varão”, de “Os três Cavalheiros”, de “O cativo”, a preciosa “Oração das almas”, as jubilantes “Boas-Festas”, dão-nos uma imagem das gentes algarvias inteiramente à margem de qualquer lugar-comum turístico, e, pelo sentimento de seriedade e de altania que nos comunicam, as integram a elas, e nos integram a nós, na unidade fisionómica de um povo, cuja psique, nas suas mais fundas manifestações espirituais, acaso um dia possa vir a provar-se (e esta série “Música Regional Portuguesa” para tal porventura será útil contributo) se não compadece com fáceis, gratuitas e apressadas conclusões.
Fernando Lopes-Graça

CD – 6 ALGARVE

MÚSICA REGIONAL PORTUGUESA – RECOLHAS DE MICHEL GIACOMETTI / FERNANDO LOPES-GRAÇA

1 Leva, leva! 4´33”
2 Dona Mariana 4´47”
3 Baile mandado 3´12”
4 As Santas Cruzes 1´15”
5 Despique 1´05”
6 Oração de Santo António 1´24”
7 D. Varão 3´05”
8 As excelências da Virgem 1´29”
9 Janeiras 4´28”
10 Ai, ó linda! 2´28”
11 Oração da Almas 3´08”
12 Deus te salve, ó Rosa 2´37”
13 Os três “cavalheiros” 2´08”
14 Corridinho (I) 1´37”
15 Salvé-Rainha 2´23”
16 Laurinda 3´01”
17 A confissão da Virgem 1´45”
18 O cativo 1´28”
19 Corridinho (II) 1´15”
20 Faça, ai, ai, meu menino 2´07”
21 Boas-Festas 1´52”

Tempo total CD – VI 51´57”

2 Respostas to “PS 5008 Musica Regional Portuguesa – 6 CDs”

  1. Dulcídio Oliveira Says:

    Gostaria de adquirir esta colecção que já procuro há bastante tempo. Como posso fazer? Alguém tem alguma informação?


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